FREUD E A PSICOLOGIA DAS MASSAS. Em Psicologia das massas e análise do eu, Sigmund Freud investiga uma questão que sempre o inquietou: o que mantém coesa uma massa de pessoas? Este que é um dos chamados “textos sociais” do autor foi construído à luz dos então mais recentes estudos sobre antropologia e psicologia dos povos. Utilizando conceitos como identificação, regressão, idealização, libido e recalque, Freud esmiúça o funcionamento dos grandes grupos e os mecanismos inconscientes que propiciam que uma multidão de seres pensantes se submeta cegamente a um líder. Gestada durante anos, mas publicada apenas em 1921, a obra traz, inerentes, ecos do momento histórico em que foi elaborada – em uma Europa devastada pela barbárie da guerra, ganhava força o movimento nazifascista. Porém, hoje, num mundo superpopuloso em que a individualidade muitas vezes é aniquilada pela força das multidões e em que a intolerância religiosa está na ordem do dia, fica ainda mais evidente a genialidade de Freud ao aplicar a psicanálise a outros campos do conhecimento, bem como o amplo alcance e a atualidade de seu pensamento. Um espírito de insurreição de massas humanas está varrendo o mundo todo, ocupando o único espaço que lhes restou: as ruas e as praças. O movimento está apenas começando: primeiro no norte da África, depois na Espanha com os “indignados”, na Inglaterra e nos USA com os “occupies” e no Brasil com a juventude e outros movimentos sociais. As manifestações do Brasil provocaram manifestações de solidariedade em dezenas e dezenas de outras cidades no mundo, especialmente na Europa. De repente o Brasil não é mais só dos brasileiros. É uma porção da humanidade que se identifica como espécie, numa mesma Casa Comum, ao redor de causas coletivas e universais. Para Freud o sujeito imerso numa massa, se comporta completamente diferente de quando é tomado em estado de isolamento? Em outros termos: como a massa consegue influenciar o sujeito de modo tão crucial, a ponto de fazê-lo pensar e agir de maneira tão diversa? Esta questão é por Freud trabalhada a partir de um diálogo com a obra de Le Bon (1895). Com efeito, ambos concordam que, numa massa, certas idéias e sentimentos subjetivos se transformam em atos com maior facilidade. Como se lá imerso, o sujeito adquirisse uma espécie de poder que lhe permite render-se a tais pensamentos e sentimentos de forma imperiosa. Para Freud, o poder em questão remete indubitavelmente a certo afrouxamento do mecanismo de recalque. Tudo se passa com se, tomado por um sentimento de onipotência, a noção de impossibilidade lhe desaparecesse, de modo que passe a não tolerar o menor hiato de espera entre um desejo e sua efetiva realização. Da mesma maneira, por mais que o sujeito massificado seja capaz de arduamente desejar algo, isto nunca se dá por muito tempo, posto ser ele incapaz de perseverar em suas aspirações. O sujeito massificado é exaltado, tem suas emoções intensificadas e pode entregar-se às mais diversas paixões. Ele se torna um inconteste, impulsivo e, por muitas vezes, contraditório. Ademais, sua singularidade parece desvanecer, fazendo com que ele pense e se comporte tal qual os demais membros do grupo. Deste modo, ele tende a ser conduzido, com maior ou menor facilidade, em conformidade com os padrões estabelecidos pela massa.

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