O AMOR QUE PROVOCA SOFRIMENTO PSÍQUICO....

Consideramos relevante falar sobre um tipo de amor que provoca, para muitos, sofrimento psíquico, ansiedade e que em muitas situações preenchem sessões de psicoterapia e mudança de uma rotina funcional para uma disfuncional. Dentro da mesma linha temática falaremos do apego como objeto de vinculação e uma das principais causas da formação da dependência. Defenderemos que um vínculo mal formado com a principal figura de apego na infância traria transtornos nos relacionamentos na vida adulta. O vicio afetivo possui características como qualquer outra adicção e para isso precisa de um olhar individualizado, diferente de outras patologias. Abordaremos complementarmente os processos que envolvem a idealização do amor e como estão associadas à dependência afetiva. Não temos a pretensão de analisar com efeito de julgamento os efeitos de um amor dependente, lembramos antes disso que, em muitos casos a dependência é único recurso que o sujeito pode lançar mão em detrimento de sua saúde psíquica.Sabemos que construímos nossa afetividade desde o momento primário, no relacionamento profundo entre mãe e filho nas primeiras fases da vida, e que qualquer quebra nessa relação pode influenciar negativamente na forma como o sujeito irá se relacionar com o outro. A dependência afetiva é um dos fatores que fazem os consultórios psicológicos estarem abarrotados. Nem sempre as pessoas conseguem lidar com o fato de estar só e veem no outro a esperança, mesmo que a relação esteja completamente fadada ao insucesso e o rompimento eminente. O apego acaba gerando mais sofrimento e um gasto dispendioso de energia, transformando os relacionamentos no “mal do amor”.

A dependência afetiva está ligada ao termo adicção, que comumente é associada à dependência química, mas tem muita relação com a dependência afetiva emocional, uma vez que envolve a adoção patológica de um objeto que não necessariamente a droga sintética, o álcool ou o tabaco, na tentativa frustrada de lidar com seus conflitos psíquicos. No dependente afetivo não devemos nos ater unicamente em sua dependência, mas como as pessoas envolvidas internalizaram seus objetos primários e até que ponto necessitam compensar as suas faltas.
A expectativa criada pelo amor idealizado e o amor real, onde diante de nossas primeiras aspirações infantis embasadas pelo amor que vivenciamos em nossas famílias de origem transferimos e o idealizamos com os parceiros. Nesses casos o desfecho é sempre o mesmo, frustração e conflito na maior parte das vezes, por querer forçar uma situação ou um modo de ser que não corresponde a realidade, e sim a uma fantasia gerada no inconsciente, quando o vínculo amoroso tem interferência das relações primárias e do contexto familiar, de um padrão vincular que o indivíduo desenvolve a partir de sua inter e intrasubjetividade, causando dependência, na relação com outro. Desejamos sempre um amor ideal, mas o processo de maturidade exige uma adequação das fantasias à realidade.
Estreitar laços afetivos equivale acender um sinal de alerta que tem uma mensagem subliminar de sofrimento porque vinculação implica em gratificações e perdas. A dependência emocional tira do sujeito a possibilidade de ser ele mesmo, sem dúvida uma relação que implique o aniquilamento do eu pode gerar ansiedade de aniquilamento.Entregar-nos de forma desmedida por amor ou qualquer outra forma de paixão pode nos parecer uma perda e não uma vantagem. Como é possível que sejamos tão passivos? Tão sem controle? Como fazer para nos encontrar novamente? Ao ser consumido por essas ansiedades o sujeito pode erguer muros intransponíveis e não fronteiras, isolando-se de qualquer experiência de entrega emocional verdadeira. Sim, porque o fato de uma pessoa viver uma relação amorosa simbiótica não implica que houve entrega emocional saudável, o que se configura nesse tipo de relação se aproxima da patologia. É o que se chama de relação fusional, esta servirá como base na construção de nossa dinâmica emocional inconsciente, na busca do nosso objeto de amor e desejo.
No amor, não é tarefa fácil estabelecer o limiar do que é normal e do que é patológico. Muitas vezes o sujeito que está envolvido na relação não tem discernimento para distinguir o quanto faz mal compartilhar uma vida asfixiando e sendo asfixiado por um amor delirante e traz em si a ilusão que agindo de forma coercitiva irá manter o ser  amado ao seu lado, preenchendo uma lacuna que na verdade jamais será preenchida,  pois viver também é falta, é vazio, e é incompletude. Esse amor patológico pode ser caracterizado pelo comportamento de prestar cuidados e atenção ao parceiro, de maneira repetitiva e desprovida de controle em um relacionamento amoroso. Podemos acrescentar que ao nos envolvermos com alguém qualquer sentimento associado à posse, controle excessivo, atitudes de segregação e/ou sensações que gerem sofrimento para ambas as partes pode ser considerado como amor patológico e/ou dependente. Amar dá trabalho. E o ganho pode parecer pouco, especialmente quando se vive em mundo como o nosso, que nos cobra a busca por um fictício estado prazeroso ininterrupto. O ganho que não está previsto nessa conta que soma êxtases, é aquele que não se percebe imediato: as transformações do eu  na experiência da intersubjetividade. O eu não é um produto pronto e acabado na saída da primeira infância. O eu passa a vida se fazendo e se refazendo nas relações com o mundo. A falta de relações intersubjetivas autênticas impossibilita experiências da vida que são imprescindíveis para felicidade do eu. Ou seja, não nos bastamos, mesmo quando acreditamos que é melhor não gostar de ninguém para evitar sofrimento. Evitamos as dores de amores pelo outro e afundamos nas dores do vazio de si mesmo. O amor atrai pela promessa do bem, mas cutuca uma ferida narcísica: expõe nossa carência, nossa falta em sermos completos como gostaríamos. Quando amamos, sofremos porque vemos no outro tudo que nos falta e queremos. Sofremos porque temos medo que o outro goste menos de nós e nos abandone, levando consigo uma parte nossa que nos desabita. Contudo, apesar de todas intercorrências que são inerentes a quem padece da dependência afetiva, não adianta impor nossa forma de amar, não adianta a doação incondicional a pessoa amada se não existir amor a si próprio. Aquele encontro conosco que (re)significa nossa experiência e nos coloca no lugar de sujeito nos tirando da posição de apenas desejante.





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